Confesso que a essa hora da madrugada eu admito meus dois Eu.Confesso, nada é o que realmente deveria ser, e isso era absolutamente um problema. Quanto às conseqüências... Talvez fosse importante, talvez não. Ela está à beira da histeria. Eu não diria que ela está errada, mas não consigo lhe dar razão. Está andando de um lado para o outro, gesticulando muito e falando rápido. Talvez ela tenha medo de perder o controle e desabar. Aposto que é isso que ela gostaria. Tenho certeza que se ela pudesse pegar as palavras com suas mãos rápidas, ela as faria.Pois meu próprio sonho é colocar isso em minha cabeça. Eu tenho vontade de lhe dizer para desistir, então eu me lembro de que já disse isso e que ela ainda não desistiu. Eu desisti
Eu já não a escuto. É fácil ignorar o barulho que vem de fora. É como estar presa no trânsito com meus fones ligados. Estou ignorando e já nem sei há quanto tempo. Não me importa quantas vezes ela venha, eu simplesmente não consigo respirar de novo. Metaforicamente falando, eu estou sufocando. Não, já sufoquei. E é isso que ela não entende. Sou uma mulher com a fazeres de vários dias, com o mesmo pijama há vários dias, com comida estragada na geladeira, com uma casa que tem um cheiro estranho. Sou um garota que se afagou.
Em alguns momentos eu queria lhe dizer que me esquecesse, que seguisse com sua vida, que se casasse e fizesse lindos e revoltados filhos. Mas antes de mais nada, sou egoísta. Cheguei a essa conclusão em uma noite de insônia. Sou egoísta o suficiente para me afogar e deixá-la nessa missão de salvamento fracassada
Ela deu um grito, uma vogal ainda ressoa da palavra perdida. Está tentando recuperar minha atenção. Essa mulher, que um dia foi eu ,mulher da minha vida... a que está em meu corpo desde o dia do meu nascimento... meu reflexo no espelho embaçado , ela sabe que eu não a escuto. Talvez não seja eu a egoísta. Ela está na minha frente, olhando nos meus olhos. Eu sei que ela está usando palavras doces tentando me incentivar, deve ter lido novos livros de auto-ajuda noite passada. Será que ela tem certeza que sou eu que preciso de ajuda, ou será que na calada da noite, encostada em sua cabeceira com sua lanterna ligada, tentando achar as palavras certas, será que não é ela que está tentando se salvar? Será que eu poderia ser a ponte para essa mulher ser salva? Se pelo menos fosse tão simples.
Mais uma vez ela me olha com esses olhos frustrados, uma nuvem de desespero mancha seu semblante normalmente tão pálido. Acho que ela vai desistir, tenho quase certeza de que ela finalmente encontrou seu limite. De alguma forma eu quase me sinto aliviada, mas em alguns momentos, em uma fração de segundos, eu me sinto desesperada e um tanto decepcionada. Minha consciência havia me alertado desse risco, ou dessa conseqüência. Em algum momento as pessoas se cansam de tentar ajudar, elas se cansam de não conseguir ajudar, e principalmente, elas se cansam de serem sempre afastadas. Não é como se eu me importasse. Não é como se qualquer coisa importasse.
Ela está no banheiro. Eu escuto a torneira ligada. Posso até imaginá-la se olhando no espelho tentando encontrar a coragem, tentando se encontrar. Ela tem uma decisão a tomar. Não quero tentar imaginar o que ela vai fazer, mas sei que quando aquela porta se abrir algo vai acontecer. Ela pode continuar tentando ser a boa moça que sempre foi e se machucar um pouco mais, ou ela pode ir embora, deixar a chave para trás, deixar essa história tão cansativa para trás... Ela pode me deixar para trás. E eu só consigo pensar que isso deveria importar.
Ela chorou.
Eu gostaria que as coisas fossem diferentes. Eu gostaria de poder reconfortá-la e lhe dizer que tudo vai ficar bem. Gostaria de caber nos seus sonhos e ser a garota certa. Pode parecer idiota, mas eu gostaria mesmo. Ao invés disso, eu tomei uma decisão. Uma decisão que muda tudo.
Ela parece não saber mais o que dizer, mas continua aqui. Ela não sabe que tudo vai mudar, e me pergunto o quanto ela vai me odiar. Minha decisão está tomada, e em meses essa é a primeira vez que eu me sinto decidida. Isso quase me revigora. Mas também me dá um certo medo.
Tenho vontade de lhe dizer: vou embora. Vou deixar apenas um sentimento nesse corpo.Dois Eu’s não cabem aqui.Tenho vontade mesmo. Mas não acho que ela entenderia, não acho que alguém no mundo entenderia. Vou abandoná-la. A decisão cresceu como fogos de artifício estourando aqui dentro com estalos que só eu escuto. Eles me deixam surda para as palavras dela, me deixam surda para todo o resto. Não acho que minha intenção seja fugir, por mais estranho que pareça acho que minha intenção é sobreviver. Será que faz algum sentido?
Eu a olho agora. Não apenas olho, como também a vejo. Estou me despedindo, tenho certeza. Não sei quando a verei de novo, não sei quando voltarei, sequer sei para onde vou. Mas vou. E deixá-la é minha forma de dizer que a amo. É minha forma de cuidar dela.Sou egoísta. Eu sabia... Eu poderia ter ficado aqui como a 18 anos eu estou... e ser apenas uma... mas, a cada dia eu me aumento, me divido e já não há espaço para quem tenta me trazer de volta.Um lado é sobrevivência;outro lado é suicido. Um lado é perdão ,do outro lado é vingança. Um lado é nova paixão,do outro lado é não ter coração. Um lado a trás de volta,outro lado a expulsa de tudo que é dela. Um lado se multiplica, o outro se subtrai... um lado vai embora... o outro quem sabe à salvará.