Confesso que ela se perdia assim, em uma tarde de chuva derretida. Com os pés descalços e o coração desbotado... enquanto algo dentro de si gritava com um silêncio mudo.
Ela poderia correr o quanto quisessem, e também poderia fugir e se embrenhar no desconhecido caminho à sua frente. Paisagens novas e rostos frescos de memorias não utilizadas. Naquele horário ela podia ser quem quisesse e mesmo assim tudo estaria certo. Naquele momento ela se perguntava por que disse a ele tantos adeuses e nunca o deixou partir. Naquele horário ela sabia que podia ser vista, achada ou perdida. Podia brincar de roda e até acreditar no blábláblá encantado da Disney. Depois da meia-noite ela preenchia o silêncios com suspiros vazios de uma melancolia calculada. E então afastava seus suspiros, seus dissabores, suas dores, com um falso riso e um som cristalino de inutilidade ornamentada, e quando se atrevia a olhar para dentro, via monstros e aberrações disfarçadas em um heroísmo barato. Sua força arquejava com uma respiração lenta e pesada em que o ar se recusava a entrar, a existir. Era forte. Ou pelo menos, era o que aparentava. E se algo estivesse errado, sorria. Um sorriso sem sol, sem sal, sem calor. Sem nada. Como se soubesse tudo. Como se não soubesse nada. Fingia, era certo. Fingia muito bem. Fingia saber qual estrada seguir, quais passos dar, sabia quando fazer os olhos sorrirem. Fingia uma certeza inexistente e acreditava em fantasmas, assombrações e bicho-papão à meia-noite.
Acreditava em verdades perdidas, mal ditas e malditas... verdades fantasmas. Verdades que não eram mentiras, nem verdades. Verdades. Sabe como é? Ela fingia que sim. Fingia muita coisa. E até o seu sol parecia de mentirinha. Uma brincadeira inconsequente de cores sem cores. Depois da meia-noite, abraçava seus sonhos, abocanhe seu ego, rasgava suas flores e dizia a si mesmo o que no outro dia fazer. Ela não deixava seus sonhos irem muito longe e os mantinham acorrentados, pois tinha medo de ser abandonada, de ver seus sonhos atropelados nas rodovias esburacada. Segurava-os entre dedos muito leves e unhas sempre coloridas, escarpadas de um sangue barato. Depois da meia-noite só restava ela. Ela e seus contos, ela e seus fantasmas. Depois da meia-noite um corcel de fogo vinha lhe salvar entre sonhos e almofadas. Depois da meia-noite o que restava?
Lance os dados. Quero correr por campos coloridos. Pode me levar até lá? Te deixo entrar no meu mundo e você me acompanha enquanto eu te dou minha mão. E te largo entre labirintos bem desenhados. Sou escorpião, amigo. Sabe qual? Aquele que te abandona, te fere e se mata com venenos ilícitos , porque depois da meia-noite, se eu fosse você, corria por sua vida. Corria pra sempre. Ela era assim. Contos de princesas em cemitério. Mas era tudo muito sem querer. Um acidente delicado. Desses tão irônicos e trágicos que buscam uma gargalhada cínica no fundo da garganta. E uma lágrima espremida dos olhos. Uma antítese quase perfeita, quase feita, quase inteira. Quase ela. Esqueça as palavras. Elas aqui não te ajudarão, não te levarão para lugar algum. Porque da boca não virá verdade alguma, salvação alguma. Nem muito menos maldição ou um sem-fim de pragas. É o fim do mundo. Acredite em mim. Suas mentiras eram quase sinceras. E tinham um fundo de verdade, um fundo de dor. É só pra te proteger, juro. Pra te proteger de tudo aquilo que não conhece e não entende. Acha que está vendo o que está vendo? É ilusão de ótica, garanto. Tudo de faz de conta. Faz de conta que era assim, que não era difícil , nem tão complicado, nem tão solitário. Faz de conta que tudo era verdade. Faz de conta que você entendeu, e aceitou e amou. Faz de conta que não parou de mandar suas mensagens a meia-noite, e faço de conta que não as espero no mesmo horário. Faz de conta que não me afogo no seu sorriso as vezes tão falso. Pegue minha mão que o sol já vai nascer. Vou te libertar pra sempre.
Até a próxima meia-noite.

