Confessionário

sábado, 10 de março de 2012

Resposta

Confesso  que ela  adorava descobrir que ainda tinha fôlego para mais uma longa caminhada. Embora soubesse. Ah, sempre sabia até onde podia chegar, mesmo que o futuro nada lhe revelasse, mesmo que o dia seguinte fosse apenas uma promessa, sabia que podia sempre se levantar... Mas precisava da surpresa, do prazer que era cada descoberta, e escondia de si mesma - como um cão que escondia o osso apenas para depois encontrá-lo enterrado num lugar esquecido - escondia a sua própria força armazenada no seu mais profundo abismo, e este, enfeitava com flores azuis só para ver, intrigada, a ironia da beleza e das flores que nasciam também em túmulos, em terra seca, terra queimada.
Brincava com o perigo - pior que fogo, porque desse ainda se podia morrer - Se balançava no seu nada como um jogo de vai-e-vem, destemida e impregnada de um acaso que só a sorte concebia. Só Deus ,só o acaso, só a sorte, e estes se mesclavam e surgia então a sua própria vida. Dizia adeus ao próprio adeus, e desse nada mais se tinha. Erguia a cabeça então, reta, esguia, como serpente encantada. Atormentava-se sempre, com questões irrelevantes, com medo, sempre o medo de descobrir a resposta.

Postado por Confessionário às 20:12
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